
Lembro-me de ler as Escrituras pela primeira vez aos 8 anos. Devo ter lido em outros momentos, mas não era um costume em nossa casa. Certo dia, duas pessoas bateram à porta e, inusitadamente, minha mãe abriu e as convidou para entrar. Disse que eu precisava de ajuda espiritual, pois, segundo ela, eu vinha manifestando uma imensa rebeldia.
Foi a partir dali que comecei a ser acompanhada por duas moças amáveis, que me ensinaram a orar e a buscar a Deus. É bem verdade que aquela religião me ensinou sobre um Deus distante de mim, mas foi ali que o Espírito Santo começou a guiar os meus passos em Sua direção.
Ano após ano, minha fome pela presença de Deus se tornou ainda maior. Crescendo em um ambiente onde as religiões de matriz africana tinham grande influência, meus olhos estavam abertos para muitas coisas que a maioria das pessoas não via, ou, ao menos, não compreendia.
A Bíblia, diariamente aberta diante de mim, com meus olhos pequenos passando por ela, me ensinava a clamar e declarar diante do medo: “O nome do Senhor é uma torre forte” (Pv 18:10a); “…todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10:13). E assim, pelos anos seguintes, fui preservada de coisas que mal posso mencionar aqui, simplesmente por aprender a invocar o nome de um Deus que, mesmo parecendo distante, estava atento para responder à oração sincera de uma criança que estava aprendendo a amá-Lo.
Com o tempo, deixei de encontrar respostas na família e naquela religião. A intimidade dos apóstolos com o Senhor, a fé de Ana orando no templo, a virtude que cobriu Maria em sua missão, tudo isso despertava o reconhecimento de que havia mais de Deus para ser revelado a mim.
Foi quando, aos 17 anos, visitei uma Igreja Batista, convidada por alguns amigos. Lá, uma jovem cantava no púlpito:
Volta pra casa, volta pra igreja,
Rasga do peito a vergonha e a dor
Cristo te chama, vem sem reservas,
Esqueça o passado, Ele apagou
Eu comecei a chorar profundamente. Não entendi por que aquela canção me convidava para um lugar do qual eu nunca fiz parte. Cristo me chama? Por que Ele se importaria comigo? Havia algo em mim digno do chamado de Cristo?
Eu saí correndo daquele culto, assustada com aquela presença que me cercava. Decidi nunca mais passar na frente daquela igreja, com medo do desconhecido que de algum modo me atraía.
Pouco tempo depois, minha mãe, que havia tentado me introduzir a uma nova religião quando eu tinha oito anos, encontrava-se desesperada diante de uma adolescente que já não ouvia sua voz. E ela me pediu: “Filha, vá a um culto. Apenas um. E eu nunca mais vou te pedir isso”.
Foi naquele ambiente que ouvi a voz de Deus mais uma vez — não nos ouvidos, não na mente, mas inundando a minha alma como um convite, convencendo-me do amor de um Cristo que, por amor, morreu por mim, por minha família, e nos chamava agora de amigos.
Desde então, eu choro. Choro de alegria, de gratidão, de compaixão por aqueles que ainda não conhecem esse amor; choro de tristeza por aqueles que não creem. Choro de dor, pelas tribulações que tentaram me afastar do meu Mestre. Mas as lágrimas que derramo vêm, principalmente, da imensa gratidão pelo amor que me cercava desde a infância, quando eu mal sabia Seu nome, mas Ele me conhecia.
É verdade que muitos de nós se esquecem dos primeiros passos. Nós nos acostumamos a entrar e sair dos cultos, a ouvir canções que emocionam, palavras que impulsionam, mas deixamos de entrar na presença de Deus e desfrutar da doçura do Seu amor.
Quando Jesus disse: “quando orares, entra no quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto” (Mt 6:6), eu sempre entendi como um convite à intimidade.
Mas depois de quase 25 anos de caminhada com Jesus, entendo que Ele queria dizer: “Entre no quarto, feche a porta. Não deixe que as distrações roubem Minha voz. Para Me ouvir, você vai precisar silenciar muitas vozes, deixar pensamentos de perfeccionismo, a necessidade de controle, e aprender a discernir a Minha vontade. Para ler a Minha Palavra, deixe os outros pensadores que você escolheu como mentores e Me ouça como seu Mestre. Feche a porta, silencie sua própria voz e permita que Meu Espírito paire sobre o caos da sua mente e do seu coração, trazendo alívio e respostas que só existem na Minha presença. Eu sou seu amigo e quero te ensinar a andar comigo”.
Com o tempo, aprendemos e ensinamos tanto sobre Deus, que podemos esquecer de desfrutar da beleza da revelação da Sua doce e transformadora presença. Podemos esquecer a loucura de obedecer como o povo em Jericó, marchando e quebrando seus vasos ao chão, sem entender o que aconteceria, mas confiando na voz que os conduzia.
Esperamos tanto por coisas que não aconteceram e deixamos de desfrutar como Simeão, que, ao ver o menino Jesus no templo, disse que enfim poderia descansar, pois seus olhos viram o Senhor (Lc 2:29,30).
Deixamos de crer que Deus deseja gerar algo em nós para Sua glória, como Ana, que, em lágrimas, ofereceu ao Senhor o filho que estava pedindo a Ele. (1Sm 1:11)
Temos sido dominados pela busca dos nossos projetos e desejos, nos relacionando com um Deus que apenas sacia nossa vontade? Já não entramos mais na presença do Senhor como Cristo, que chorou angustiado pela incredulidade do povo, desejando cumprir a vontade do Pai.
Esquecemos que fomos chamados a sofrer por amor a Ele, carregar nossa cruz e seguir Seus passos? Talvez os nossos sonhos não se realizem, para que os sonhos de Deus se cumpram em nós e, através disso, muitos sejam alcançados com vida e paz.
Então eu te pergunto: pelo que você tem chorado diante de Deus?
São lágrimas de inquietação pelas respostas que não vieram?
São lágrimas pedindo coisas incessantemente?
Ou são lágrimas de gratidão pelo bem que o Senhor te fez até aqui?
Quando foi a última vez que você chorou aos pés de Jesus?
Recentemente, passei por um vale de profunda tristeza. Os meus olhos transbordavam lágrimas e minha única oração era: “Senhor, torna a dar-me a alegria da Tua salvação. Não me deixe ser dominada pela dor”.
Mas eu já estava dominada por ela. E quando as pessoas vinham até mim em busca de consolo, eu respondia com as Escrituras, mas com o peso da minha alma cansada.
Foi quando meditei em Jeremias, no capítulo 20: “Senhor, foste mais forte do que eu e prevaleceste… quando digo: Não falarei mais em Teu nome, as tuas verdades são como um fogo ardente em meu coração, um fogo que me consome por dentro. Sinto-me exausta por tentar contê-lo”.
Muitas vezes, em nossa racionalidade, tentamos conter as lágrimas, agir com suposta maturidade, mas a verdade é que Deus tem nos convidado a desfrutar de Seu amor e cuidado, de comunhão com Ele em uma caminhada de devoção sincera, e a desejar ardentemente Sua presença e Sua direção, como crianças com fome e sede da Sua presença.
Então, se você tem trilhado esse caminho, persevere! Mas se, há tempos, não “fecha a porta do seu quarto” nem se derrama em lágrimas diante dEle, falando como a um amigo íntimo, eu te convido a fazer isso o mais rápido possível. Aqueles que clamam a Ele são salvos de si mesmos e cheios das verdades dos pensamentos do Pai a seu respeito.
Não fique esperando pela próxima oportunidade, o melhor momento é agora!
“Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração” (Jr 29:13).
Escrita: Carolina de Sales
Revisão: Juliana Pellicer Ruza
Que preciosidade esse texto! Obrigada