
A existência do mal é um problema que tem intrigado a humanidade ao longo da história. Na tentativa de harmonizar a ideia da presença do pecado no mundo e a compreensão de um Deus soberano e bondoso, surgiram diversas discussões filosóficas e teológicas. Inúmeros estudiosos das Escrituras se debruçaram sobre esse tema ao longo dos anos, mas a verdade é que isso vai além de nós. Nosso intelecto humano não consegue alcançar a mente de Deus em sua totalidade. No entanto, sabemos de algo com firmeza: tudo que Deus faz é bom! Por isso, convido você a refletir acerca de alguns dos motivos pelos quais Ele permitiu a entrada do pecado no mundo.
Olhando para o início, nos dois primeiros capítulos do Gênesis, nos deparamos com uma verdadeira poesia sobre a criação do universo. A cada etapa, o Criador traz vida às coisas através de sua palavra e contempla a própria criação exclamando “é bom!”. É possível perceber o amor de Deus na criação, especialmente ao formar o homem, que foi feito à Sua imagem e semelhança. As Escrituras afirmam que o Criador fez todas as coisas de acordo com a Sua vontade e sabedoria (Salmos 104.24). E ainda, todas as coisas foram criadas única e exclusivamente para Sua glória (Salmos 119.1) – por Ele, para Ele e por meio Dele (Romanos 11.36).
Entretanto, logo no capítulo três acontece a queda, quando o ser humano desobedece a ordem divina de não comer do único fruto que Deus havia proibido. Então, todas as coisas que estavam em perfeita harmonia são contaminadas pelo pecado. Em outras palavras, a entrada do pecado no mundo mudou todo o curso da história, trazendo consequências que reverberam até hoje. Apesar de termos os relatos da criação e queda tão próximos cronologicamente, eles apresentam em sua essência um cenário contrastante. Dessa forma, essa mudança drástica no estado da criação pode nos gerar certas dúvidas, como “onde estava Deus?” ou “será que Deus foi pego de surpresa?”. Vejamos, então, o que dizem as Escrituras a respeito disso.
Na narrativa da criação, temos o Deus Criador como protagonista, e as Escrituras exaltando as obras feitas por Suas mãos. Todavia, não podemos esquecer que além de criar, Ele também sustenta a criação (Mateus 10.29). Em suma, todas as coisas criadas na terra e nos céus estão sob seu soberano governo. Certamente, é impossível pensar na criação sem lembrarmos da providência. Nessa perspectiva, o Catecismo de Heidelberg afirma que a providência de Deus é “a força todo-poderosa e presente, com que Deus pela sua mão, sustenta e governa o céu, a terra e todas as criaturas”. Claramente, as Escrituras deixam evidente a soberania divina em vários textos, então entendemos que a queda não foi uma mudança de planos. Nesse sentido, o autor Geerhardus Vos, em “Teologia Bíblica”, afirma que “depois que o homem comeu do fruto da árvore, Deus não agiu como se tivesse alguma coisa a temer dessa intrusão do homem. Ele retém sua superioridade absoluta. O homem se posta diante de Deus como um pecador pobre e necessitado”. Por outro lado, a Bíblia também afirma que todas as coisas que Deus faz são boas, que Ele é luz e não há Nele trevas alguma (1 João 1.5-10). Nesse trecho, ao afirmar que não há trevas no ser de Deus, o autor quer ressaltar a natureza divina que é santa e sem pecado. Do mesmo modo, os feitos de Suas mãos também expressam Seus atributos, como está escrito em Salmos 92.5 “como são grandes as tuas obras, Senhor, como são profundos os teus propósitos!”.
Esse dilema nos leva a pensar no quanto nossa mente pequena não é capaz de alcançar a mente de Deus. A própria Bíblia afirma que os pensamentos e os caminhos Dele são mais altos que os nossos (Isaías 55.9). Evidentemente, não conseguimos compreender de forma integral os propósitos de Deus ao permitir certos acontecimentos. Mas, como o autor Herman Bavinck afirma, o Senhor é autor de uma grande teodiceia. Nessa narrativa Ele não apenas é o autor, como também protagonista desse grande drama. Bavinck afirma que “o pecado não frustra os planos de Deus ou o torna impotente, uma vez que, contra o pecado, Deus continua sendo Deus – perfeito em sabedoria, bondade e poder”. Nesse sentido, as Escrituras dão diversos exemplos em que o mal se transformou em bem (Gênesis 50.20), e dessa forma Deus se revela soberano até mesmo em momentos de escuridão.
Como vimos, não há dúvidas da soberania divina, que Suas obras são boas e que Ele é o Autor de toda a história, cuja finalidade é glorificá-Lo. Porém, as Escrituras afirmam que muito antes de existir o pecado, existiu a cruz. No capítulo primeiro de Efésios, Paulo afirma que fomos escolhidos desde a eternidade, em Cristo Jesus, para o louvor de Sua glória. Ao contemplarmos toda a narrativa bíblica, o ápice da história é quando esse Deus se encarna e demonstra Seu amor para conosco morrendo no madeiro. É impossível saber o que aconteceria se não existisse o pecado. Evidentemente, Deus continuaria sendo Deus. Contudo, não se revelaria como Redentor e Perdoador no desenvolver do plano de salvação. O primeiro Adão, que foi falho e fraco, precisou existir para que se revelasse o segundo Adão, perfeito e amoroso, na pessoa de Cristo. A própria Palavra de Deus afirma que Cristo se fez pecado por nós, como está escrito em 2 Coríntios 5.21 “aquele que não conheceu pecado, Ele o fez pecado por nós; para que, Nele, fôssemos feitos justiça de Deus.” No livro “Providência”, John Piper consegue elucidar essa verdade afirmando que “o louvor da graça que Deus tem como alvo antes da fundação do mundo será realizado ‘por meio de Jesus Cristo’”. Olhar para Cristo nos faz entender a obra completa, não apenas um recorte. Acima de tudo, todo o drama divino se resume numa história de amor de Deus para conosco.
Talvez você tenha chegado aqui com mais dúvidas, mas, diante dos questionamentos, nos resta descansar e confiar na soberania e amor do Autor da história. Perante um Deus tão maravilhoso e acima da nossa compreensão, façamos como Paulo em Romanos 11, que, numa posição de humildade, exclamou “ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a Ele para que lhe venha a ser restituído? Porque Dele, e por meio Dele, e para Ele são todas as coisas. A Ele, pois a glória eternamente. Amém!”.
Por Sara Reis