
O que é uma mãe perfeita? Pare um momento e pense: como você definiria uma mãe perfeita? Qual é sua aparência? O que ela faz? Qual é sua rotina? Onde mora? Do que se alimenta? O que vem na sua mente quando você pensa nessa mulher? Será que ela dá conta de tudo? Nunca fica irada com os filhos? Seus filhos nunca fazem birra e estão sempre limpos? Ela faz homeschooling? Trabalha meio período? Faz devocional com os seus filhos todos os dias? Afinal, o que é uma mãe perfeita?
Talvez no seu imaginário estejam algumas das características que pontuei acima. Talvez, você se encaixe em algumas delas. Em todas, talvez? Talvez você não se encaixe na maioria delas. A verdade é que vivemos em um tempo de muitas cobranças sobre as mães. O Instagram, por exemplo, é uma vitrine de mães perfeitas, que nunca erram, que servem comidas saudáveis 100% do tempo, que nunca se irritam com os filhos, que estão com todas as demandas em dia. Diante disso, muitas de nós nos sentimos fracassadas, como se não estivéssemos fazendo nem o mínimo para entrar na lista de boas mães, que dirá na lista de mães perfeitas.
Mães imperfeitas
Mas, se você me permite, deixe-me tirar um fardo do seu coração agora mesmo: não existem mães perfeitas. Não existem mães perfeitas porque não existem pessoas perfeitas. A maternidade não traz consigo um poder de perfeição que só pertence às mães. Ao contrário do que a cultura nos induz a acreditar, as mães não são seres imunes a erros, falhas e pecados.
Reconhecer nossa própria limitação é fundamental para vivermos uma maternidade bíblica. Se considerarmos que somos capazes de ser mães perfeitas, insistiremos em fazer isso com base em nossa própria força, sobrecarregando-nos com métodos, tarefas e tentativas frustradas. Portanto, o único caminho para fugirmos do orgulho materno é reconhecer que somos mães imperfeitas diante de um Pai perfeito.
Se o sucesso da nossa maternidade estiver depositado sobre os nossos ombros, pelo menos duas coisas irão acontecer:
1. Naturalmente falharemos;
2. Sentir-nos-emos um fracasso.
Todas nós enfrentamos na caminhada cristã a frustração de não sermos perfeitas. Até mesmo o apóstolo Paulo vivenciou esse sentimento: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; com efeito o querer o bem está em mim, mas o efetuá-lo não está. Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico […] Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7:18-24).
Felizmente, ele encontrou seu alívio: “Graças a Deus, por Jesus Cristo, nosso Senhor!” (v.25). Graças a Deus que Cristo é perfeito, e ele foi perfeito em nosso lugar. Isso alivia o peso dos nossos ombros e nos lembra de que o evangelho não é um processo seletivo por meio do qual Deus está observando a nossa conduta para ver se somos boas candidatas ou não. Na verdade, nós nunca seríamos aceitas se não fosse por Cristo. Por isso, as palavras do apóstolo Paulo são um alívio para mim, porque me fazem olhar para Jesus sempre que me sinto fraca e imperfeita.
Nem todos os dias acordamos felizes e sorrindo. Nem sempre as crianças se portam com etiqueta e comem como deveriam. Nem sempre o dia “nasce feliz”. Às vezes, ele nasce nublado. Às vezes, o coração amanhece tão pesado que não há forças nem para se levantar da cama. Há dias em que as nossas orações parecem nem passar do teto. Mas nem por isso Deus nos considera menos dignas do seu favor. Nem por isso somos péssimas mães. Mesmo quando exclamamos “Miserável homem que sou!”, não deixamos de ser alvo da graça.
De fato, somos mães imperfeitas todos os dias, até no melhor dos nossos dias. O chamado à maternidade não é um jogo de performance, não é sobre o quão capazes somos de criar filhos educados, bem alimentados e salvos. Mas é sobre deixar que o nosso Pai perfeito nos use como instrumento na formação de filhos para a sua glória. Nesse sentido, nós somos cooperadoras na obra dele, não autoras. Entender isso já muda a maneira como enxergamos o nosso papel e tira de nós o peso do sucesso, como se tudo dependesse de nós, pois, por trás da nossa obra, está a obra do Senhor.
Pai perfeito
Para exercermos uma maternidade fundamentada no Evangelho é importante nos lembrarmos de que antes de sermos mães, nós somos filhas de Deus. Como filhas, precisamos da ajuda do nosso Pai celestial para cumprirmos as tarefas mais básicas do nosso dia a dia. Quando Jesus afirmou que sem ele nada podemos fazer (Jo 15:5), ele não estava se referindo somente à salvação, mas a toda a obra de Deus no mundo. Verdadeiramente, sem ele não conseguimos nem mesmo cumprir o nosso papel como mães, não conseguimos amar e criar os nossos filhos da forma correta porque não está em nós essa capacidade.
Somente o Pai perfeito pode ajudar filhas imperfeitas a cumprirem o seu chamado. Então, querida irmã, pare de lutar com suas próprias forças, pare de tentar ser perfeita, pare de carregar esse fardo e confie os seus cuidados ao Senhor.
Maternidade coram Deo
Como, então, devemos exercer o nosso papel de mães? Já vimos que precisamos reconhecer a nossa incapacidade de sermos mães perfeitas. Também aprendemos que devemos recorrer ao Pai perfeito para que ele oriente a nossa maternidade com graça. A melhor forma de vivermos a maternidade debaixo da orientação do Senhor é fazendo todas as coisas diante da presença de Deus e para a glória de Deus. Desde trocar uma fralda até orar com os nossos filhos, todo o nosso trabalho é espiritual e dependente de nosso Pai. Isso é o que eu chamo de maternidade coram Deo.
Mas, afinal, o que é coram Deo? Talvez você nunca tenha ouvido essa expressão. Uma boa definição de coram Deo foi dada pelo teólogo R. C. Sproul: “Viver coram Deo é viver uma vida inteira na presença de Deus, sob a autoridade de Deus, para a glória de Deus.” Essa expressão latina foi amplamente difundida durante a Reforma Protestante, e significa literalmente “diante da face de Deus”. Os reformadores compreendiam que, diferentemente da visão católica, não havia essa dicotomia entre o trabalho de Deus e o trabalho secular, não havia atividades “mais espirituais” e “menos espirituais”. Em outras palavras, uma vez que todo trabalho é vivido diante de Deus, ele deve ser realizado para a glória de Deus.
Quando falo de maternidade coram Deo, meu objetivo é ressaltar que não há como viver uma maternidade à parte de Deus. Se não tivermos um relacionamento genuíno com o Pai, não poderemos ser boas mães. Além disso, a maternidade coram Deo é um lembrete de que todo o nosso trabalho ordinário é feito diante de um Deus extraordinário. Ele se importa com a nossa missão. Quer comamos, quer bebamos, quer corrijamos os nossos filhos, façamos tudo para a glória de Deus (1Co 10:31).
A maternidade vivida coram Deo não é ingênua a ponto de desprezar a difícil realidade de criar filhos neste mundo. Ela reconhece os efeitos da Queda, não somente no mundo, mas em seu próprio coração e no coração de seus filhos. Mas ela reconhece e percebe a graça do Senhor a despeito da Queda, e consegue ter esses vislumbres da graça nos dias comuns. A vida coram Deo vê Deus agindo na fraqueza. Ela enxerga a maternidade como um árduo, mas glorioso e necessário processo de santificação.
A maternidade vivida coram Deo não é a maternidade das supermães, impecavelmente perfeitas. Também não é sobre as mães que amam seus filhos, mas odeiam a maternidade. Não, ela não é a maternidade das mães arrependidas, que escolhem resmungar e se lamentar. Ela é intencional e reconhece o poder de Deus atuando nas nossas fraquezas. Mesmo cansada, ela insiste mais um dia. A maternidade vivida coram Deo é feita por mães que choram, mas também é feita por mães que oram e confiam que no Senhor nenhum trabalho é vão (1Co 15:58), que nenhuma semente será desperdiçada e que, no fim das contas, não é só sobre trabalharmos para tornar os nossos filhos determinado tipo de pessoas, mas sobre quem estamos nos tornando nesse processo. Afinal, nós os santificamos e eles nos santificam.
Querida irmã, que a maternidade não ofusque a glória de Cristo em sua vida, mas que a glória de Cristo brilhe sobre e por meio da sua maternidade. Não perca isto de vista: a maternidade não é um fim, mas um meio para a glória dele. Que ele cresça e que nós diminuamos.
“Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua benignidade e da tua verdade.” (Salmos 115.1)
Prisca Mendonça