
Se você está lendo este texto pelo celular, congele! Observe a sua postura. É bem provável que você esteja olhando para baixo, encolhida no próprio mundo. Mas muito mais importante que uma coluna ereta, quero usar esse exemplo visível para chamar a sua atenção ao fato de que, muitas vezes, a forma como você usa o celular tem direcionado os seus olhos para o próprio umbigo, quando, na verdade, eles deveriam estar voltados para o alto – Deus – e para os lados – pessoas.
Ao longo dos anos, tenho sido muito desafiada com relação ao uso desse aparelho, que, embora pequeno, ocupa um espaço enorme em meu coração. Não quero “chover no molhado”, nem pretendo concluir que é o bastante diminuir o tempo de uso e não consumir nada pecaminoso. Você já ouviu isso o suficiente. Meu desejo é leva-la a olhar mais fundo, muito além dessa pequena tela, até o cerne do seu coração.
Hábitos geram amores
O que você mais ama? Essa é uma pergunta teoricamente fácil para um cristão. Sabemos a resposta correta. Mas será que ela é verdadeira? Talvez você entenda que amores geram hábitos. É fácil concluir que alguém que ama sua família faz coisas para o bem dela; ou que alguém que ama seu cônjuge pode preparar algo que o agrade no final do dia; e, principalmente, é bem lógico que alguém que ama a Deus deseje ter um relacionamento com Ele por meio da leitura da Palavra e da oração.
Não pensamos, porém, no caminho inverso: hábitos também têm o poder de gerar amores, e isso talvez esteja levando-a para muito longe daquilo que pensa amar.
James Smith, no livro “Você é aquilo que ama”, diz que
Você pode não amar o que acredita amar, pois talvez você não perceba qual história realmente conquistou sua imaginação. Se você é o que ama e faz o que deseja, então precisamos estar atentos a como nossos desejos são formados, se quisermos ser criadores fiéis, precisamos cuidar do inconsciente, onde ficam armazenadas as histórias que nos governam. Esteja atento àquilo que adora; isso moldará o seu querer e consequentemente, o que você faz e como opera (p.233).
É impossível escrever sobre o mal uso da tecnologia e não pensar em mim mesma como o melhor dos exemplos para isso. Minha rotina matinal é composta basicamente por mexer no celular enquanto me arrumo ainda sonolenta para ir ao trabalho. O despertador toca, 7h da manhã, desligo ainda sem conseguir abrir os olhos, mas já entro no Instagram com a desculpa de que isso talvez me desperte – mas é claro que você não se identifica nem um pouco com isso, não é mesmo?
Aquilo que fazemos todos os dias, as pequenas e inofensivas coisas que repetimos a cada manhã, não só externam, mas moldam aquilo que cremos, desejamos, amamos e quem somos.
Há uma constante luta em nosso íntimo, porque nos comparamos com o salmista, que meditava de dia e de noite na lei do Senhor e tinha prazer nela, mas não sentimos o mesmo. É claro que não, porque hábitos geram amores. É impossível que você olhe para o celular na primeira hora pela manhã, no intervalo do almoço, a cada notificação e como a última coisa antes de dormir e ainda espere que esses hábitos moldem em você um coração que ama o Senhor acima de todas as coisas.
Você não adorará ao Senhor tanto quanto deveria enquanto passar cada segundo livre olhando para o seu próprio reflexo nesse espelho preto que carrega no bolso. Enquanto o celular for a sua resposta para quando você estiver entediado, estressado, feliz, preocupado ou buscando qualquer tipo de controle e fuga da realidade, Deus será colocado em segundo plano.
Não existem atitudes neutras
Tony Reinke, em “Guerra dos espetáculos”, afirma: “No Salmo 101.3: ‘não porei coisa vã diante dos meus olhos’ (tradução livre). A palavra aqui – vão – é literalmente a locução: sem proveito. É ‘a característica de ser inútil, de não servir para nada’. Para o salmista, algo ‘sem proveito’ não é apenas neutro – é algo mal aos olhos de Deus” (p.140).
O conteúdo que consumimos não é – e não foi feito para ser – neutro. Talvez esse vídeo de 15 segundos não tenha algo pecaminoso em sua essência, mas o próprio verbo utilizado para descrever essa constante rolagem pelo feed – consumir – já nos aponta para o impacto que esse conteúdo traz. Nós estamos sempre consumindo, nos alimentando de uma enchente de estímulos visuais que impactarão nossas emoções e afetos mais profundos.
Lucas 11.34 aponta nossos olhos como janelas para a alma. Se a mente é a sentinela que antevê o perigo e controla todos os soldados contra os desejos da carne, os olhos podem ser os guardas que destroem o castelo e deixam todos os inimigos passar sem impedimento. Se os seus olhos forem maus, todo o corpo será. Se o que você consome não é necessário, não edifica e não transmite graça, você está entregando todo o seu corpo, mente e coração à perdição.
Prazeres superiores precisam superar deleites inferiores
Não sei se você é uma leitora ávida ou se, assim como eu, mais gosta de comprar livros do que realmente lê-los, mas eu tenho lutado para fazer da leitura um hábito mais prazeroso e rotineiro. Nesse processo, comecei a pensar no motivo de achar as pequenas letrinhas em páginas amarelas algo tão enfadonho, mesmo quando elas contêm valores que eu sei serem importantes.
A resposta não estava muito longe. Nós nos acostumamos a estar constantemente expostos a coisas rápidas, efeitos chamativos, movimentações de câmera inesperadas, cortes… Se um vídeo não cativa meu interesse na primeira metade de segundo, não é digno da minha atenção e já é logo passado para cima. Você já viu algum post de trecho de podcast no qual metade da tela é usada para algum outro vídeo “satisfatório” para tentar reter mais atenção? O quão disperso nos tornamos para que essa medida seja necessária?
Se estamos tão saturados com imagens e cada vez mais exigentes com a inovação, não assusta que achemos “chato” precisar passar por algumas dezenas de páginas até que uma história fique interessante.
No livro já citado, Reinke diz:
Alimentar-se de mídias pecaminosas irá anular suas santas afeições. Sem dúvida. Mas empanturrar-se de um excesso de mídias moralmente neutras também irá depredar seu zelo afetivo. Cada um de nós precisa aprender a proteger prazeres superiores fazendo guerra contra deleites inferiores (p.150).
Um estudo americano constatou que o efeito da rolagem do feed no cérebro é semelhante ao de um caça-níquel: imagens rodando sem parar, que sempre entregam pequenas doses de dopamina, fazendo com que seu espectador fique vidrado, buscando o prêmio maior – ou o vídeo mais interessante.
Nós nos contentamos com pequenas doses de prazer rápido de forma que esse deleites inferiores nos distraem e afastam dos prazeres superiores em Cristo, que exigem mais tempo, atenção e trabalho. Enquanto você se contentar com migalhas e não tomar a iniciativa de agir em obediência, nunca experimentará do banquete que o Senhor tem oferecido.
O poder na palma das mãos
Compramos nosso próprio modo de ser o Deus de nossa vida. Decidimos quem vamos ouvir, se vamos deixar com que as pessoas saibam se visualizamos uma mensagem ou não, expomos nossa opinião sem limites, temos acesso a qualquer conhecimento e informação, e podemos até escolher a velocidade da fala de alguém.
Nunca foi tão difícil manter relações pessoais e reais, já que dão muito mais trabalho e requerem muito mais paciência e esforço de nossa parte do que as mensagens totalmente controladas por nossos dedões. “O maior problema com a TV não é que ela seja inerentemente má, mas sim que a TV é infinitamente boa em nos dar exatamente o que queremos, sempre que quisermos” (Reinke, Idem, p.151). Ter a sensação de controle na palma da mão afasta nossos olhos e corações de quem é verdadeiramente soberano.
Conclusão
Seria injusto simplesmente estipular um limite de minutos diários no telefone ou dar uma lista interminável de permissões ou proibições de conteúdo. O que realmente importa quando o assunto é o uso da tecnologia é estarmos dispostas a verdadeiramente responder: o que nossos amores estão perseguindo? Que amores estamos fabricando com aquilo que nos alimentamos diariamente? Você tem realmente amado acima de todas as coisas aquilo que pensa amar? Que as respostas dessas perguntas a guiem no uso da tecnologia e a direcionem ao próximo passo.
Por Lara Sayuri